Arquivo da categoria: Estado

The Capitalist University

Dado a urgência de enfrentar as reformas em andamento para a educação no Brasil, vou postar aqui em inglês um artigo escrito pelo historiador Henry Heller que oferece um resumo de seu novo livro, The Capitalist University: The Transformations of Higher Education in the United States, 1945-2016. Heller ministra aula na University de Manatoba, na Canadá, onde 1.200 professores e funcionários encontram-se em greve desde 1 de novembro, 2016, contra reformas neoliberais.

Nota-se que, para o campo, a universidade é extremamente importante como produtor de conhecimento e quadros para o desenvolvimento territorial humana.

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A Socialist Project e-bulletin … No. 1328 … November 10, 2016
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Protesting the Capitalist University

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The University of Manitoba is on strike. Since 1st November, more than 1,200 faculty members took to the picket line to protest the lack of funding for education, a need for workload protection and safeguarding for fairer tenure and promotion procedures, in addition to addressing several job security issues for instructors and librarians. Author of The Capitalist University, Henry Heller is a professor of History at the University of Manitoba, he writes here of the strike and how the walkout resonates with the themes of his book.
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Henry Heller

Authors don’t often get to live out the denouement of their books. Yet that is what is happening to me as I blog. On 20 October Pluto published The Capitalist University. Its last chapter deals with the development of the neoliberal university and the growing resistance to it on the part of faculty and students and other workers. Two weeks have gone by and I find myself on a picket line at the University of Manitoba on a faculty strike
against the neoliberal university. As we stand vigil at the gates of the University the days are rapidly shortening and getting colder. Overhead the geese are quickly and excitedly fleeing to the south. But each morning since 1 November I find myself on the morning shift defying the university’s attempt to impose total control over the work of professors
and librarians at our university. We are an important part of a rising tide of class struggle developing both inside and outside of universities across the globe against the ravages of neoliberal capitalism.
The heyday of the universities came between 1945-80 at the height of the Cold War and was marked by massive support from government including the military for universities. Universities defined their mission as directed to public service and strove to create knowledge which had both practical as well as theoretical aspects. In the humanities and social sciences a few scholars even pursued a critical knowledge which sought disinterested truth in the analysis of ideas and society. The climax of this era came in the
1960s when unprecedented student protests over civil rights, the U.S. war in Vietnam and bureaucratic domination over university life spilled over into society at large and led to challenges to the capitalist order.
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Entrevista com Blario Maggi, Ministro da Agricultura do estado golpista

16 de julho de 2016 | N° 18583
COM A PALAVRA
“A BRIGA POR TERRA É UMA QUESTÃO IDEOLÓGICA”
Eram 9h em ponto, na manhã ensolarada de 6 de julho, quando piou o passarinho do relógio cuco no gabinete do 8º andar do bloco D da Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Estava dado o sinal para a entrevista começar. Desde que assumiu a pasta da Agricultura, há pouco mais de dois meses, o produtor rural e senador Blairo Maggi tem dividido seus dias desta maneira:

– Tenho audiências de 30 minutos e de uma hora, dependendo do assunto. Quando o passarinho canta pela segunda vez, encerramos a conversa.

Na parede oposta à sua mesa, onde tem recebido comitivas de todo o país (do algodão do oeste da Bahia à maçã de Vacaria), uma imagem em destaque: a do pai, André Maggi, de quem herdou os olhos claros e um dos maiores conglomerados do agronegócio brasileiro. Morto em 2001, o patriarca da família, natural de Torres, construiu um império no cerrado do Centro-Oeste, o qual rendeu ao filho o título de rei da soja – desbancado mais tarde pelo primo Eraí Maggi.

Com a experiência de quem foi o maior produtor rural do Brasil, governador de Mato Grosso por dois mandatos e senador antes de se tornar ministro da Agricultura, ele não hesita em tratar de assuntos polêmicos – como a demarcação de áreas indígenas, reforma agrária e venda de terras para estrangeiros.

Maggi saiu do Rio Grande do Sul ainda no ventre de sua mãe, dona Lúcia, hoje com 84 anos. Embora nascido no Paraná, foi registrado pelo pai no município gaúcho de Três Cachoeiras, numa tentativa de perpetuação das origens. Deu certo. O ministro mantém laços com o Rio Grande do Sul mesmo vivendo os 60 anos de sua vida longe do Estado, do chimarrão à paixão pelo Inter.

Sem saber o tempo que ficará na Esplanada dos Ministérios, indefinido por conta do governo interino de Michel Temer, quer deixar uma marca: a da eficiência. A mesma que fez o Grupo Amaggi faturar R$ 12,7 bilhões no ano passado, em produção de grãos, trading, energia e operações portuárias. Confira os principais trechos da entrevista, feita em exatamente uma hora:

No início de junho, o senhor foi à China em sua primeira missão oficial e, agora em julho, vai embarcar para os Estados Unidos para tentar liberar os negócios de carne bovina in natura. Como a abertura de novos mercados pode ajudar o Brasil, especialmente em um momento de retração da economia interna?

O Brasil tem a grande oportunidade de fazer a retomada do crescimento pelo agronegócio. É um setor que responde muito rápido, que em um ano pode aumentar a produção de suínos, aves e bovinos e a oferta de grãos. Mas para fazer isso precisamos de mercado, precisamos ter para quem vender. A ida para esses países não é só arrumar o lugar para onde vender, mas dizer como vamos entregar, quais são os procedimentos que adotamos, garantir que nosso processo de sanidade é íntegro e confiável.

O mercado americano deve ser finalmente liberado neste mês?

Está tudo muito bem programado para isso. Mas os produtores têm de entender que todo mercado tem caminho duplo, assim como vai, vem. Nós estamos abrindo mercado para mandar mercadoria para lá, mas estamos abrindo também o nosso mercado para eles virem para cá. Por exemplo, a gente consome muita picanha, os americanos não consomem tanto esse corte. Então por que não trazer picanha americana? Ou seja, o fluxo será de duas mãos, assim como nas negociações com a União Europeia. E não há problema nisso, pois somos muito competitivos.

Como o senhor pretende conduzir assuntos polêmicos, como a demarcação de terras indígenas?

O Brasil tem 13% de terras indígenas demarcadas em seu território, contra 8% de terras ocupadas pela agricultura e 19% pela pecuária. Temos mais terras indígenas do que terras que produzem alimentos no Brasil. Então a questão não é de falta de volume de terras para indígenas. O que acontece é que em alguns lugares os índios são incitados, por outros interesses, a arrumarem confusão em áreas já consolidadas. Fui relator de uma PEC no Senado, que agora está na Câmara, que estabelece que quando criada uma nova área indígena, o proprietário deve ser indenizado pelo valor da terra e também pelas benfeitorias. Esse é um jogo claro. Se você quer a terra, leva, mas para isso precisa pagar o que ela vale. O que o agricultor não aceita, e eu também não aceito, é o produtor ser expropriado. Estar em cima de uma propriedade por mais de 50 anos, como está acontecendo no Rio Grande do Sul, e ser retirado da propriedade sem nenhum direito. Isso não existe. Não é o direito de um que vale sobre o direito do outro.

E quanto à reforma agrária?

Com esse volume de terras que o Brasil tem, eu não entendo a briga pela terra. É muito mais ideológico que qualquer outra coisa. Se é preciso fazer um assentamento em uma região, eu não sou contra. Mas temos de fazer dentro da normalidade. O governo deve lançar um edital de compra de terras para assentar um determinado número de famílias, comprar essas áreas pelo valor de mercado e assentar as pessoas. Eu duvido que o governo não consiga comprar mil hectares de terra em qualquer região do país. O que não pode é esse aspecto ideológico do processo, de tentar tirar de quem tem para dar para quem não tem, e ainda não indenizar. Ora, quem tem, trabalhou, construiu para ter algo, e precisa ser respeitado.

O senhor tem defendido a venda de terras para estrangeiros. Podemos esperar alguma medida a curto prazo?

Esse é um assunto que defendo nem tanto pela ocupação física das terras por estrangeiros, mas muito mais por bancos estrangeiros que poderiam irrigar de recursos as nossas atividades, tanto as agroindústrias, o financiamento da produção e investimentos. Mas eles têm reticências em fazer no Brasil porque não podem ter a terra como garantia. Nesse aspecto, a liberação traria mais dinheiro ao setor. As terras para culturas perenes, como cana-de-açúcar, laranja e eucaliptos, não vejo nenhum problema em liberar. Na produção de grãos é que eu tenho um pouco de resistência, ou melhor, preocupação. Porque você pode ter um grande fundo de investidores que pode ter alguns milhões de hectares de terra num país e de repente fazer as contas em um ano e decidir não plantar. E como ficam os outros setores da economia? Transporte, comércio e empregos. No momento em que o presidente abrir essa discussão, levaremos essa preocupação para tentar achar uma forma de mitigar esse risco.

É difícil fazer parte de um governo provisório? Quais as maiores as pressões?

Temos de ter atitude de um governo provisório, sem perder o olhar para o futuro. Mas tem coisas que só serão iniciadas quando esse governo se concretizar. É mais uma questão de foro íntimo das pessoas de entender que estamos aqui, mas ainda não podemos ter um projeto de dois anos, pois o processo pode ser interrompido daqui a 50 ou 40 dias. As chances são pequenas, mas são possíveis. E começar mudanças significativas, que possam não ter continuidade, é um pouco temerário.

O uso de agroquímicos é também um assunto polêmico, que suscita posições adversas. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o uso de herbicidas à base de paraquat, contestado mundialmente, chegou a ser proibido e, depois, liberado. O ministério tem alguma ação no radar para controlar o uso de agrotóxicos nas lavouras?

Especificamente no caso do paraquat, a questão não é nem a toxicidade do ambiente. É um produto que, se ingerido, mata as pessoas, e se usa esse produto em suicídio, no campo e na cidade. O produto não é altamente tóxico na lavoura, mas sim se for ingerido. Mas, no geral, o Brasil é criticado pelo alto uso de agrotóxico que nós utilizamos, litros por hectare comparado com outros países. O que precisamos entender é que o Brasil é o único país do mundo que tem agricultura no trópico, ou seja, umidade e alta temperatura, um clima propício para pragas e doenças. Como viemos fazendo culturas sucessivas, soja, milho e algodão em duas safras por ano, isso faz com que tenhamos que ter um uso mais intensivo de inseticidas. Nenhum produtor usa agroquímico porque gosta, diferentemente do que muitos pensam. Até porque tem custo e risco, não estou aqui ignorando os riscos que se tem. A biotecnologia é muito bem-vinda, mas não é solução para tudo.

O senhor já foi governador de Mato Grosso por dois mandatos. Já foi também considerado Rei da Soja. Qual experiência lhe ajuda mais hoje?

As duas, certamente. Eu tenho experiência na administração, no mundo público, de saber como as coisas funcionam. E conheço na vida prática as necessidades do setor. Mas a agropecuária é um mundo. Deparei com o problema do mormo (doença infecciosa que atinge equinos e pode ser transmitida a humanos) quando cheguei ao ministério, nunca tinha ouvido falar. Mas claro que conhecer como funciona o processo ajuda a fugir da burocracia. O serviço público tem a mania de dizer que é importante por dizer “Não”. Na minha filosofia, é o contrário, ele é importante porque ele pode dizer “Sim”.

Entre as ações iniciadas pela ex-ministra Kátia Abreu, a quais o senhor pretende dar continuidade e quais pretende abandonar?

A ministra Kátia também procurou avançar. Considero a gestão dela diferente da minha no sentido de ideologia de governo. Eu tenho certeza que muitas coisas em que a ministra Kátia queria avançar não avançou porque tinha uma barreira ideológica do governo. E você vai até um certo ponto, depois disso não passa por causa do plano de governo. O que é bom não será jogado fora, tocaremos para frente.

O grupo Amaggi é um dos maiores conglomerados do agronegócio, que não atua apenas na lavoura, mas no setor de infraestrutura e energia. Em que momento a logística brasileira irá conseguir acompanhar o crescimento da agricultura?

Nós avançamos muito nos últimos anos. Uma história de 30 anos não é nada para um país. Há 30 anos nós produzíamos muito pouco no Centro-Oeste, praticamente não existia agricultura na região. Não tínhamos nenhuma estrada, não tinha um corredor para sair. Hoje temos várias alternativas, pelos portos do Nordeste, do Sudeste e Sul. Ferrovias foram construídas, hidrovias foram implantadas, rodovias estão sendo duplicadas. Claro que se olharmos para onde querermos ir, falta muita coisa ainda. Mas se olhar um pouco para trás, de onde nós viemos, avançamos bastante. E a forma de mudar isso é simples: concessionar. Hoje, um caminhão demora quase o dia inteiro para percorrer um trecho de 200 quilômetros entre Cuiabá e Rondonópolis. Se o trecho for duplicado, em três horas ele faz esse trajeto. Temos que tirar o governo do meio e colocar a iniciativa privada para fazer.

O senhor é de uma família de migrantes que saiu do Rio Grande do Sul, a exemplo de tantas outras que foram para o Centro-Oeste em busca de terras baratas. Como esse movimento mudou a história do Brasil?

A maior parte da agricultura que se faz no Brasil é feita por gaúchos ou seus descendentes. É um povo danado, que está buscando oportunidades, sem medo de empreender e até de dar errado. A minha família saiu do Rio Grande do Sul ainda no final da década de 1950 para o Paraná, quando tinha um movimento do Getúlio Vargas para conquista do Oeste. E depois, no final da década de 1970, migramos para o Centro-Oeste, em outro programa do governo de ocupação de terras. E muitos dos que foram não deram certo, alguns escolheram o lugar errado e tiveram de voltar. Mas muitos conseguiram estar no lugar certo, na hora certa. O povo gaúcho é responsável por essa colonização brasileira, que começou no Oeste de Santa Catarina, passou pelo Paraná, Centro-Oeste até chegar no Matopiba (região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Quando vou ao Rio Grande do Sul, jovens produtores vêm me perguntar: para onde devo ir? Esse espírito de desbravar continua vivo até hoje.

Como o senhor vê essa possibilidade de taxar as exportações do agronegócio para cobrir o rombo da Previdência? Esse assunto foi tratado pelo presidente interino?

Repúdio 100%, abraço de afogado. Esse assunto sequer foi tratado, vi pelos jornais. Não concordo e vou discutir até morrer dentro do governo que isso não deve ser feito. O único setor dentro da economia brasileira que está dando certo, o saldo da balança comercial é quase todo nosso. O governo de Goiás chegou a fazer isso, depois voltou atrás. Isso é retirar dinheiro de um setor que dá certo para dar a quem não tem eficiência. Seria um atraso, vou defender isso até o fim, caso o assunto seja colocado em discussão.

A contribuição da agropecuária para a economia brasileira é mostrada em números. Mas muitas vezes o setor não é compreendido pela sociedade. O que é preciso fazer para que essa imagem, por vezes negativa, seja revertida?

O agro é um setor que fala muito para dentro, fala para ele mesmo e pouco para fora. O Brasil preserva 61% de seu território, que está da mesma forma de quando Cabral chegou ao Brasil. Nenhum país do mundo faz isso. Na legislação brasileira, a questão ambiental é uma das mais duras, é a que mais se obedece. E mesmo assim nós somos criticados, somos jogados na vala comum como se estivéssemos acabando com a Floresta Amazônica. E isso só interessa aos competidores mundiais. Os irlandeses, por exemplo, são os mais contrários à carne brasileira na comunidade europeia. Eles mostram fotos de abates clandestinos, abates na rua, como se o brasileiro consumisse aquela carne. Pretendo reagir a esse tipo de situação, desafiando-os a mostrar se têm o mesmo cuidado que temos.

O senhor tem uma formação profissional no Centro-Oeste, onde a agricultura tem um perfil empresarial, diferentemente do Sul, onde predomina a agricultura familiar. Como o senhor pretende tratar essas diferenças?

Quando vamos nos alimentar não perguntamos de onde veio a soja que fez o presunto ou a soja e o milho que alimentaram os frangos. Se é do pequeno, médio ou grande produtor, a população quer se alimentar com preços competitivos. Na ponta, todos os agricultores são iguais. Agora, as políticas são diferentes. É uma questão de competitividade. Se nós do Centro-Oeste, que temos grandes propriedades, fôssemos feitos de pequenas propriedades, com a mesma gestão e os custos do Rio Grande do Sul, não sobreviveríamos, pois ganhamos menos por unidade. Isso sem falar nas culturas de menor volume, que são produções em pequena escala mas com grande importância econômica e com riscos.

Recentemente o governo isentou PIS e Cofins do feijão para tentar regular o mercado. O que o governo pode fazer para evitar esse sobe e desce no preço dos alimentos, que acaba impactando na inflação?

O governo não controla o clima e não pode regular o mercado, apenas em momentos críticos de baixa ou alta de preços. E a decisão do agricultor de plantar uma cultura ou outra é dele. Quem deve fazer essa regulação é o próprio mercado. O governo vai entrar em determinados momentos, quando os preços estiverem bem baixos, fazendo estoque regulador. O que faltou nos últimos anos foi que o governo não colocou dinheiro e os estoques baixaram, como o milho, por exemplo. Vamos tentar neste ano ampliar os estoques. Estamos prevendo uma nova crise do milho no próximo ano. Se a iniciativa privada não comprar com antecedência o produto que está em condições de exportar neste ano, vai faltar novamente no próximo ano. A paridade do preço do milho passa a ser o porto: o milho que vem do interior para o porto e do exterior para o porto. O mercado se regula. O Estado deve apenas ser um balizador e criar as condições para que isso aconteça.

O senhor tem alguma ambição hoje?

Não. Eu particularmente sou uma pessoa muito reservada. Não frequento eventos de badalação. Saio do apartamento funcional (em Brasília), venho para cá às oito horas da manhã. Trabalho, volto para casa, durmo. Em Mato Grosso sou assim também. Enquanto fui governador, durante oito anos, não participei de 10 eventos públicos à noite. Sou um cidadão extremamente diurno. Se quer me ver irritado, me convide para um jantar ou para sair à noite. Eu acredito muito no trabalho. Contra o trabalho não há argumentos.

Independentemente do período que o senhor ficar no Ministério, alguns meses ou anos, qual marca pretende deixar?

A marca da eficiência, para as pessoas olharem e dizerem: o ministério era de um jeito e agora é de outro.

FONTE: Secretaria Geral do MST (email)

Visita com geógrafo e preso político Valdir

Por Anderson Antônio da Silva*

Presidente Prudente, 08 de julho de 2016.

No último dia 04/07/2016, representando o Prof. Bernardo Mançano Fernandes, todos os Pesquisadores do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária – NERA, bem como membros da Rede DATALUTA, realizei visita ao José Valdir Misnerovicz, liderança dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST no Estado de Goiás, que é mantido injustamente preso na Penitenciária do município de Aparecida de Goiânia, Região Metropolitana de Goiânia.

Logo na entrada da penitenciária fomos abordados na portaria e convidados a seguir daquele ponto em diante andando. Só obtivemos a permissão para seguir de carro, pois estava em nossa companhia um senhor de 77 anos chamado Frei Marcus, membro da Comissão de Direitos Humanos, além da Sra. Rosasa, ex-esposa do Valdir, e sua filha de 11 anos Inaiá.

Assim que nossa entrada na penitenciária foi liberada, fomos recebidos pelo Valdir que se encontrava sentado em um cadeira, logo após a portaria onde fica o Raio-X, local onde a câmera da penitenciária e o microfone conseguiam monitorar nossa conversa.

Valdir fez licenciatura e o bacharelado no curso de Graduação em Geografia na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista – UNESP, Campus de Presidente Prudente, entre os anos de 2007 – 2011. Valdir foi um dos jovens beneficiados pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária – PRONERA.

O primeiro abraço ao companheiro Valdir foi dado por sua filha Inaiá. Valdir afagou Inaiá em seus braços com um abraço bem apertado. Inaiá inevitavelmente se emocionou e Valdir em tom serene disse para ela que em breve o Papai iria embora daquele lugar. Na sequência ainda com a Inaiá afagada em seus braços, começou a planejar junto dela as férias do final de ano.

Na sequencia sua ex-esposa Rosana e eu o abraçamos. Rosana entregou a ele alguns livros e eu uma cópia impressa do último boletim DATALUTA e uma carta escrita pela companheira Valeska Gálvez Huinca, pertenezco ao povo Mapuche, estudante do último ano de Pedagogia em Inglês da Universidade de Playa Ancha, no Chile, que participou da Escola de Inverno da AUGM que aconteceu em Presidente Prudente – Região do Pontal do Paranapanema entre os dias de 20 a 24 de junho.

Durante a visita fomos informados que após uma conversa de lideranças do MST com o Governador do Estado de Goiás Marconi Perillo, ele disse não saber como poderia ajudar. Contudo, no mesmo dia Valdir foi visitado a pedido do governador por um oficial de patente. Na sequência removeram Valdir de sua cela, e desde então Valdir tem ajudado na cozinha e na horta da Penitenciária. No momento divide um quarto com mais 5 colegas. Liberaram a entrada de qualquer tipo de comida para o Valdir e do seu Mate para chimarrão, Como estamos falando de uma penitenciaria e não de um hotel, no que pese seu acesso a estas amenidades, Valdir continua injustamente preso, e sobre a alegação de ser líder de uma facção criminosa, fato que beira o absurdo.

Enquanto estávamos em visita, uma moça que aparentava ter uns 30 anos de idade, muito bem vestida, que não sei dizer o nome nem sua posição hierárquica dentro da penitenciária, passou por nós e disse: “Valdir, você é muito famoso, nem políticos recebem tanta visita como você”. Neste instante, Valdir em voz branda respondeu: “Dra. é porque não era para eu estar aqui”.

Nos minutos finais de nossa visita, Valdir nos disse que tem estudado muito, mas que tem esperanças que sairá de lá antes de terminar a leitura do seu próximo livro. No que pese o microfone que monitorava toda nossa conversa, Valdir disse que tem sido muito bem tratado, que ninguém tem judiado dele, que o tratamento na Penitenciária é bom, e que quando sair seu comunicado de liberdade sairá correndo de lá sem olhar para trás, pois não faz questão nem de levar seus pertences.

Durante o trajeto percorrido até chegar a penitenciaria, durante todo o tempo que permanecemos em visita, durante o retorno para casa e até o momento que escrevo este texto, fico me perguntando, como pode o regime Democrático brasileiro tratar os movimentos sociais, vanguarda da sociedade, como uma organização criminosa, a partir da Lei Nº 12.850, de 2 de agosto de 2013, ao passo que os verdadeiros criminosos e corruptos deste pais estão soltos. Embora a correlação de forças não seja favorável, essa lei precisa ser urgentemente revista.

Em nossa despedida sua filha Inaiá orgulhosa do pai, novamente se emocionou. Uma agente penitenciária chamada Sônia passou a mão em sua cabeça e disse: “minha linda, logo tudo irá se resolver”. Eu, a Rosana, o Frei Marcus e a jovem Inaiá, nos despedidos todos do Valdir, e naquele momento tive a sensação que o visitado naquela tarde havia sido eu, pois a força do Valdir como liderança me fez sair de lá mais forte do que entrei, mas confiante, mas convicto que continuar na luta por um mundo diferente além de valer a pena é possível. 

  • O autor é pesquisador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária – NERA da UNESP – Presidente Prudente, onde ele também recebeu sua formação como geógrafo e mestrado em Geografia, projeto co-orientado pelo Cliff Welch.

Valdir: Militant do MST feito preso político em Goiás

On May 31, 2016, Valdir Misnerovicz, an important and effective organizer of the Landless Workers Movement (MST) in Brazil was arrested while teaching a class on agricultural coops in Veranópolis, a city in the southern state of Rio Grande do Sul. The arrest did not stem from his lectures, but from his activism. To organize the poor to occupy land in the name of fulfilling Brazil’s constitutional mandate to ensure the “social function” of land through its appropriation and distribution among peasants is considered illegal gang activity by the government of Michel Temer, which came to power last month in what many consider to be a coup d’etat.

The news of Misnerovicz’s arrest came a few days after a related revelation. In March, two high level members of the opposition against President Dilma Rousseff (PT), whose power was recently suspended as she awaits impeachment proceedings in the federal senate, were recorded while discussing the current political crisis. Senator Romero Jucá was taped assuring his colleague that he had recently spoken with “the generals, military commanders.” He went on, “Everything is fine, they told me they would ensure order. They’re monitoring the MST, I don’t know how, to ensure there won’t be any disturbances.” (See < http://m.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1774018-em-dialogos-gravados-juca-fala-em-pacto-para-deter-avanco-da-lava-jato.shtml> Jucá, who recently resigned as minister of planning in the coup government due to these revelations, is the vice-chair of the Brazilian federal senate.

In addition to dedicating years to the landless movement, Misnerovicz recently completed a bachelor’s degree in geography at the State University of São Paulo (UNESP), where he studied in a special undergraduate program for peasants sponsored by the ousted Workers Party (PT) government. The author of this note was a professor in the program and Misnerovicz’s thesis advisor was Bernardo Mançano Fernandes, another LAP contributing editor. Misnerovicz studied the new demands for organizing the landless movemtne among Brazil’s urban poor.

The arrest of Misnerovicz on criminal charges demonstrates what Jucá may have meant when he said that the “generals” claimed to be “monitoring” the MST. While the warrant for Misnerovicz’s arrest was issued in the state of Goiás, where Valdir lives and works, his arrest occurred over a thousand miles away in a different state and was carried out by local police, indicating systematic communication and intelligence gathering in the execution of police work reminiscent of systems developed under Brazil’s long-lived dictatorship (1964-1985). This same system used such arrests to generate information through torture – recently confirmed in Red Cross documents from the period. These suspected connections increases the urgency for guaranteeing Misnerovicz’s quick release.

Please write to < sri@mst.org.br > expressing concern over Valdir’s arrest and urging his quick release. Struggling for agrarian reform in Brazil is not a crime, it is a constitutional duty.