Entrevista com Blario Maggi, Ministro da Agricultura do estado golpista

16 de julho de 2016 | N° 18583
COM A PALAVRA
“A BRIGA POR TERRA É UMA QUESTÃO IDEOLÓGICA”
Eram 9h em ponto, na manhã ensolarada de 6 de julho, quando piou o passarinho do relógio cuco no gabinete do 8º andar do bloco D da Esplanada dos Ministérios, em Brasília. Estava dado o sinal para a entrevista começar. Desde que assumiu a pasta da Agricultura, há pouco mais de dois meses, o produtor rural e senador Blairo Maggi tem dividido seus dias desta maneira:

– Tenho audiências de 30 minutos e de uma hora, dependendo do assunto. Quando o passarinho canta pela segunda vez, encerramos a conversa.

Na parede oposta à sua mesa, onde tem recebido comitivas de todo o país (do algodão do oeste da Bahia à maçã de Vacaria), uma imagem em destaque: a do pai, André Maggi, de quem herdou os olhos claros e um dos maiores conglomerados do agronegócio brasileiro. Morto em 2001, o patriarca da família, natural de Torres, construiu um império no cerrado do Centro-Oeste, o qual rendeu ao filho o título de rei da soja – desbancado mais tarde pelo primo Eraí Maggi.

Com a experiência de quem foi o maior produtor rural do Brasil, governador de Mato Grosso por dois mandatos e senador antes de se tornar ministro da Agricultura, ele não hesita em tratar de assuntos polêmicos – como a demarcação de áreas indígenas, reforma agrária e venda de terras para estrangeiros.

Maggi saiu do Rio Grande do Sul ainda no ventre de sua mãe, dona Lúcia, hoje com 84 anos. Embora nascido no Paraná, foi registrado pelo pai no município gaúcho de Três Cachoeiras, numa tentativa de perpetuação das origens. Deu certo. O ministro mantém laços com o Rio Grande do Sul mesmo vivendo os 60 anos de sua vida longe do Estado, do chimarrão à paixão pelo Inter.

Sem saber o tempo que ficará na Esplanada dos Ministérios, indefinido por conta do governo interino de Michel Temer, quer deixar uma marca: a da eficiência. A mesma que fez o Grupo Amaggi faturar R$ 12,7 bilhões no ano passado, em produção de grãos, trading, energia e operações portuárias. Confira os principais trechos da entrevista, feita em exatamente uma hora:

No início de junho, o senhor foi à China em sua primeira missão oficial e, agora em julho, vai embarcar para os Estados Unidos para tentar liberar os negócios de carne bovina in natura. Como a abertura de novos mercados pode ajudar o Brasil, especialmente em um momento de retração da economia interna?

O Brasil tem a grande oportunidade de fazer a retomada do crescimento pelo agronegócio. É um setor que responde muito rápido, que em um ano pode aumentar a produção de suínos, aves e bovinos e a oferta de grãos. Mas para fazer isso precisamos de mercado, precisamos ter para quem vender. A ida para esses países não é só arrumar o lugar para onde vender, mas dizer como vamos entregar, quais são os procedimentos que adotamos, garantir que nosso processo de sanidade é íntegro e confiável.

O mercado americano deve ser finalmente liberado neste mês?

Está tudo muito bem programado para isso. Mas os produtores têm de entender que todo mercado tem caminho duplo, assim como vai, vem. Nós estamos abrindo mercado para mandar mercadoria para lá, mas estamos abrindo também o nosso mercado para eles virem para cá. Por exemplo, a gente consome muita picanha, os americanos não consomem tanto esse corte. Então por que não trazer picanha americana? Ou seja, o fluxo será de duas mãos, assim como nas negociações com a União Europeia. E não há problema nisso, pois somos muito competitivos.

Como o senhor pretende conduzir assuntos polêmicos, como a demarcação de terras indígenas?

O Brasil tem 13% de terras indígenas demarcadas em seu território, contra 8% de terras ocupadas pela agricultura e 19% pela pecuária. Temos mais terras indígenas do que terras que produzem alimentos no Brasil. Então a questão não é de falta de volume de terras para indígenas. O que acontece é que em alguns lugares os índios são incitados, por outros interesses, a arrumarem confusão em áreas já consolidadas. Fui relator de uma PEC no Senado, que agora está na Câmara, que estabelece que quando criada uma nova área indígena, o proprietário deve ser indenizado pelo valor da terra e também pelas benfeitorias. Esse é um jogo claro. Se você quer a terra, leva, mas para isso precisa pagar o que ela vale. O que o agricultor não aceita, e eu também não aceito, é o produtor ser expropriado. Estar em cima de uma propriedade por mais de 50 anos, como está acontecendo no Rio Grande do Sul, e ser retirado da propriedade sem nenhum direito. Isso não existe. Não é o direito de um que vale sobre o direito do outro.

E quanto à reforma agrária?

Com esse volume de terras que o Brasil tem, eu não entendo a briga pela terra. É muito mais ideológico que qualquer outra coisa. Se é preciso fazer um assentamento em uma região, eu não sou contra. Mas temos de fazer dentro da normalidade. O governo deve lançar um edital de compra de terras para assentar um determinado número de famílias, comprar essas áreas pelo valor de mercado e assentar as pessoas. Eu duvido que o governo não consiga comprar mil hectares de terra em qualquer região do país. O que não pode é esse aspecto ideológico do processo, de tentar tirar de quem tem para dar para quem não tem, e ainda não indenizar. Ora, quem tem, trabalhou, construiu para ter algo, e precisa ser respeitado.

O senhor tem defendido a venda de terras para estrangeiros. Podemos esperar alguma medida a curto prazo?

Esse é um assunto que defendo nem tanto pela ocupação física das terras por estrangeiros, mas muito mais por bancos estrangeiros que poderiam irrigar de recursos as nossas atividades, tanto as agroindústrias, o financiamento da produção e investimentos. Mas eles têm reticências em fazer no Brasil porque não podem ter a terra como garantia. Nesse aspecto, a liberação traria mais dinheiro ao setor. As terras para culturas perenes, como cana-de-açúcar, laranja e eucaliptos, não vejo nenhum problema em liberar. Na produção de grãos é que eu tenho um pouco de resistência, ou melhor, preocupação. Porque você pode ter um grande fundo de investidores que pode ter alguns milhões de hectares de terra num país e de repente fazer as contas em um ano e decidir não plantar. E como ficam os outros setores da economia? Transporte, comércio e empregos. No momento em que o presidente abrir essa discussão, levaremos essa preocupação para tentar achar uma forma de mitigar esse risco.

É difícil fazer parte de um governo provisório? Quais as maiores as pressões?

Temos de ter atitude de um governo provisório, sem perder o olhar para o futuro. Mas tem coisas que só serão iniciadas quando esse governo se concretizar. É mais uma questão de foro íntimo das pessoas de entender que estamos aqui, mas ainda não podemos ter um projeto de dois anos, pois o processo pode ser interrompido daqui a 50 ou 40 dias. As chances são pequenas, mas são possíveis. E começar mudanças significativas, que possam não ter continuidade, é um pouco temerário.

O uso de agroquímicos é também um assunto polêmico, que suscita posições adversas. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o uso de herbicidas à base de paraquat, contestado mundialmente, chegou a ser proibido e, depois, liberado. O ministério tem alguma ação no radar para controlar o uso de agrotóxicos nas lavouras?

Especificamente no caso do paraquat, a questão não é nem a toxicidade do ambiente. É um produto que, se ingerido, mata as pessoas, e se usa esse produto em suicídio, no campo e na cidade. O produto não é altamente tóxico na lavoura, mas sim se for ingerido. Mas, no geral, o Brasil é criticado pelo alto uso de agrotóxico que nós utilizamos, litros por hectare comparado com outros países. O que precisamos entender é que o Brasil é o único país do mundo que tem agricultura no trópico, ou seja, umidade e alta temperatura, um clima propício para pragas e doenças. Como viemos fazendo culturas sucessivas, soja, milho e algodão em duas safras por ano, isso faz com que tenhamos que ter um uso mais intensivo de inseticidas. Nenhum produtor usa agroquímico porque gosta, diferentemente do que muitos pensam. Até porque tem custo e risco, não estou aqui ignorando os riscos que se tem. A biotecnologia é muito bem-vinda, mas não é solução para tudo.

O senhor já foi governador de Mato Grosso por dois mandatos. Já foi também considerado Rei da Soja. Qual experiência lhe ajuda mais hoje?

As duas, certamente. Eu tenho experiência na administração, no mundo público, de saber como as coisas funcionam. E conheço na vida prática as necessidades do setor. Mas a agropecuária é um mundo. Deparei com o problema do mormo (doença infecciosa que atinge equinos e pode ser transmitida a humanos) quando cheguei ao ministério, nunca tinha ouvido falar. Mas claro que conhecer como funciona o processo ajuda a fugir da burocracia. O serviço público tem a mania de dizer que é importante por dizer “Não”. Na minha filosofia, é o contrário, ele é importante porque ele pode dizer “Sim”.

Entre as ações iniciadas pela ex-ministra Kátia Abreu, a quais o senhor pretende dar continuidade e quais pretende abandonar?

A ministra Kátia também procurou avançar. Considero a gestão dela diferente da minha no sentido de ideologia de governo. Eu tenho certeza que muitas coisas em que a ministra Kátia queria avançar não avançou porque tinha uma barreira ideológica do governo. E você vai até um certo ponto, depois disso não passa por causa do plano de governo. O que é bom não será jogado fora, tocaremos para frente.

O grupo Amaggi é um dos maiores conglomerados do agronegócio, que não atua apenas na lavoura, mas no setor de infraestrutura e energia. Em que momento a logística brasileira irá conseguir acompanhar o crescimento da agricultura?

Nós avançamos muito nos últimos anos. Uma história de 30 anos não é nada para um país. Há 30 anos nós produzíamos muito pouco no Centro-Oeste, praticamente não existia agricultura na região. Não tínhamos nenhuma estrada, não tinha um corredor para sair. Hoje temos várias alternativas, pelos portos do Nordeste, do Sudeste e Sul. Ferrovias foram construídas, hidrovias foram implantadas, rodovias estão sendo duplicadas. Claro que se olharmos para onde querermos ir, falta muita coisa ainda. Mas se olhar um pouco para trás, de onde nós viemos, avançamos bastante. E a forma de mudar isso é simples: concessionar. Hoje, um caminhão demora quase o dia inteiro para percorrer um trecho de 200 quilômetros entre Cuiabá e Rondonópolis. Se o trecho for duplicado, em três horas ele faz esse trajeto. Temos que tirar o governo do meio e colocar a iniciativa privada para fazer.

O senhor é de uma família de migrantes que saiu do Rio Grande do Sul, a exemplo de tantas outras que foram para o Centro-Oeste em busca de terras baratas. Como esse movimento mudou a história do Brasil?

A maior parte da agricultura que se faz no Brasil é feita por gaúchos ou seus descendentes. É um povo danado, que está buscando oportunidades, sem medo de empreender e até de dar errado. A minha família saiu do Rio Grande do Sul ainda no final da década de 1950 para o Paraná, quando tinha um movimento do Getúlio Vargas para conquista do Oeste. E depois, no final da década de 1970, migramos para o Centro-Oeste, em outro programa do governo de ocupação de terras. E muitos dos que foram não deram certo, alguns escolheram o lugar errado e tiveram de voltar. Mas muitos conseguiram estar no lugar certo, na hora certa. O povo gaúcho é responsável por essa colonização brasileira, que começou no Oeste de Santa Catarina, passou pelo Paraná, Centro-Oeste até chegar no Matopiba (região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Quando vou ao Rio Grande do Sul, jovens produtores vêm me perguntar: para onde devo ir? Esse espírito de desbravar continua vivo até hoje.

Como o senhor vê essa possibilidade de taxar as exportações do agronegócio para cobrir o rombo da Previdência? Esse assunto foi tratado pelo presidente interino?

Repúdio 100%, abraço de afogado. Esse assunto sequer foi tratado, vi pelos jornais. Não concordo e vou discutir até morrer dentro do governo que isso não deve ser feito. O único setor dentro da economia brasileira que está dando certo, o saldo da balança comercial é quase todo nosso. O governo de Goiás chegou a fazer isso, depois voltou atrás. Isso é retirar dinheiro de um setor que dá certo para dar a quem não tem eficiência. Seria um atraso, vou defender isso até o fim, caso o assunto seja colocado em discussão.

A contribuição da agropecuária para a economia brasileira é mostrada em números. Mas muitas vezes o setor não é compreendido pela sociedade. O que é preciso fazer para que essa imagem, por vezes negativa, seja revertida?

O agro é um setor que fala muito para dentro, fala para ele mesmo e pouco para fora. O Brasil preserva 61% de seu território, que está da mesma forma de quando Cabral chegou ao Brasil. Nenhum país do mundo faz isso. Na legislação brasileira, a questão ambiental é uma das mais duras, é a que mais se obedece. E mesmo assim nós somos criticados, somos jogados na vala comum como se estivéssemos acabando com a Floresta Amazônica. E isso só interessa aos competidores mundiais. Os irlandeses, por exemplo, são os mais contrários à carne brasileira na comunidade europeia. Eles mostram fotos de abates clandestinos, abates na rua, como se o brasileiro consumisse aquela carne. Pretendo reagir a esse tipo de situação, desafiando-os a mostrar se têm o mesmo cuidado que temos.

O senhor tem uma formação profissional no Centro-Oeste, onde a agricultura tem um perfil empresarial, diferentemente do Sul, onde predomina a agricultura familiar. Como o senhor pretende tratar essas diferenças?

Quando vamos nos alimentar não perguntamos de onde veio a soja que fez o presunto ou a soja e o milho que alimentaram os frangos. Se é do pequeno, médio ou grande produtor, a população quer se alimentar com preços competitivos. Na ponta, todos os agricultores são iguais. Agora, as políticas são diferentes. É uma questão de competitividade. Se nós do Centro-Oeste, que temos grandes propriedades, fôssemos feitos de pequenas propriedades, com a mesma gestão e os custos do Rio Grande do Sul, não sobreviveríamos, pois ganhamos menos por unidade. Isso sem falar nas culturas de menor volume, que são produções em pequena escala mas com grande importância econômica e com riscos.

Recentemente o governo isentou PIS e Cofins do feijão para tentar regular o mercado. O que o governo pode fazer para evitar esse sobe e desce no preço dos alimentos, que acaba impactando na inflação?

O governo não controla o clima e não pode regular o mercado, apenas em momentos críticos de baixa ou alta de preços. E a decisão do agricultor de plantar uma cultura ou outra é dele. Quem deve fazer essa regulação é o próprio mercado. O governo vai entrar em determinados momentos, quando os preços estiverem bem baixos, fazendo estoque regulador. O que faltou nos últimos anos foi que o governo não colocou dinheiro e os estoques baixaram, como o milho, por exemplo. Vamos tentar neste ano ampliar os estoques. Estamos prevendo uma nova crise do milho no próximo ano. Se a iniciativa privada não comprar com antecedência o produto que está em condições de exportar neste ano, vai faltar novamente no próximo ano. A paridade do preço do milho passa a ser o porto: o milho que vem do interior para o porto e do exterior para o porto. O mercado se regula. O Estado deve apenas ser um balizador e criar as condições para que isso aconteça.

O senhor tem alguma ambição hoje?

Não. Eu particularmente sou uma pessoa muito reservada. Não frequento eventos de badalação. Saio do apartamento funcional (em Brasília), venho para cá às oito horas da manhã. Trabalho, volto para casa, durmo. Em Mato Grosso sou assim também. Enquanto fui governador, durante oito anos, não participei de 10 eventos públicos à noite. Sou um cidadão extremamente diurno. Se quer me ver irritado, me convide para um jantar ou para sair à noite. Eu acredito muito no trabalho. Contra o trabalho não há argumentos.

Independentemente do período que o senhor ficar no Ministério, alguns meses ou anos, qual marca pretende deixar?

A marca da eficiência, para as pessoas olharem e dizerem: o ministério era de um jeito e agora é de outro.

FONTE: Secretaria Geral do MST (email)

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