Visita com geógrafo e preso político Valdir

Por Anderson Antônio da Silva*

Presidente Prudente, 08 de julho de 2016.

No último dia 04/07/2016, representando o Prof. Bernardo Mançano Fernandes, todos os Pesquisadores do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária – NERA, bem como membros da Rede DATALUTA, realizei visita ao José Valdir Misnerovicz, liderança dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST no Estado de Goiás, que é mantido injustamente preso na Penitenciária do município de Aparecida de Goiânia, Região Metropolitana de Goiânia.

Logo na entrada da penitenciária fomos abordados na portaria e convidados a seguir daquele ponto em diante andando. Só obtivemos a permissão para seguir de carro, pois estava em nossa companhia um senhor de 77 anos chamado Frei Marcus, membro da Comissão de Direitos Humanos, além da Sra. Rosasa, ex-esposa do Valdir, e sua filha de 11 anos Inaiá.

Assim que nossa entrada na penitenciária foi liberada, fomos recebidos pelo Valdir que se encontrava sentado em um cadeira, logo após a portaria onde fica o Raio-X, local onde a câmera da penitenciária e o microfone conseguiam monitorar nossa conversa.

Valdir fez licenciatura e o bacharelado no curso de Graduação em Geografia na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista – UNESP, Campus de Presidente Prudente, entre os anos de 2007 – 2011. Valdir foi um dos jovens beneficiados pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária – PRONERA.

O primeiro abraço ao companheiro Valdir foi dado por sua filha Inaiá. Valdir afagou Inaiá em seus braços com um abraço bem apertado. Inaiá inevitavelmente se emocionou e Valdir em tom serene disse para ela que em breve o Papai iria embora daquele lugar. Na sequência ainda com a Inaiá afagada em seus braços, começou a planejar junto dela as férias do final de ano.

Na sequencia sua ex-esposa Rosana e eu o abraçamos. Rosana entregou a ele alguns livros e eu uma cópia impressa do último boletim DATALUTA e uma carta escrita pela companheira Valeska Gálvez Huinca, pertenezco ao povo Mapuche, estudante do último ano de Pedagogia em Inglês da Universidade de Playa Ancha, no Chile, que participou da Escola de Inverno da AUGM que aconteceu em Presidente Prudente – Região do Pontal do Paranapanema entre os dias de 20 a 24 de junho.

Durante a visita fomos informados que após uma conversa de lideranças do MST com o Governador do Estado de Goiás Marconi Perillo, ele disse não saber como poderia ajudar. Contudo, no mesmo dia Valdir foi visitado a pedido do governador por um oficial de patente. Na sequência removeram Valdir de sua cela, e desde então Valdir tem ajudado na cozinha e na horta da Penitenciária. No momento divide um quarto com mais 5 colegas. Liberaram a entrada de qualquer tipo de comida para o Valdir e do seu Mate para chimarrão, Como estamos falando de uma penitenciaria e não de um hotel, no que pese seu acesso a estas amenidades, Valdir continua injustamente preso, e sobre a alegação de ser líder de uma facção criminosa, fato que beira o absurdo.

Enquanto estávamos em visita, uma moça que aparentava ter uns 30 anos de idade, muito bem vestida, que não sei dizer o nome nem sua posição hierárquica dentro da penitenciária, passou por nós e disse: “Valdir, você é muito famoso, nem políticos recebem tanta visita como você”. Neste instante, Valdir em voz branda respondeu: “Dra. é porque não era para eu estar aqui”.

Nos minutos finais de nossa visita, Valdir nos disse que tem estudado muito, mas que tem esperanças que sairá de lá antes de terminar a leitura do seu próximo livro. No que pese o microfone que monitorava toda nossa conversa, Valdir disse que tem sido muito bem tratado, que ninguém tem judiado dele, que o tratamento na Penitenciária é bom, e que quando sair seu comunicado de liberdade sairá correndo de lá sem olhar para trás, pois não faz questão nem de levar seus pertences.

Durante o trajeto percorrido até chegar a penitenciaria, durante todo o tempo que permanecemos em visita, durante o retorno para casa e até o momento que escrevo este texto, fico me perguntando, como pode o regime Democrático brasileiro tratar os movimentos sociais, vanguarda da sociedade, como uma organização criminosa, a partir da Lei Nº 12.850, de 2 de agosto de 2013, ao passo que os verdadeiros criminosos e corruptos deste pais estão soltos. Embora a correlação de forças não seja favorável, essa lei precisa ser urgentemente revista.

Em nossa despedida sua filha Inaiá orgulhosa do pai, novamente se emocionou. Uma agente penitenciária chamada Sônia passou a mão em sua cabeça e disse: “minha linda, logo tudo irá se resolver”. Eu, a Rosana, o Frei Marcus e a jovem Inaiá, nos despedidos todos do Valdir, e naquele momento tive a sensação que o visitado naquela tarde havia sido eu, pois a força do Valdir como liderança me fez sair de lá mais forte do que entrei, mas confiante, mas convicto que continuar na luta por um mundo diferente além de valer a pena é possível. 

  • O autor é pesquisador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária – NERA da UNESP – Presidente Prudente, onde ele também recebeu sua formação como geógrafo e mestrado em Geografia, projeto co-orientado pelo Cliff Welch.
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