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Para conter um surto de Covid-19, um prefeito corta as estradas de acesso de um bairro de trabalhadores rurais no interior de São Paulo

Por: Lilian Primi do Instituto Macuco, 6 de junho de 2020

Prefeitura de Taquaritinga fechou acessos de distritos a Cândido Rodrigues

A prefeitura de Taquaritinga interrompeu essa semana as duas vias de ligação dos distritos de Jurupema e Vila Negri à cidade de Cândido Rodrigues, na região Noroeste do Estado de São Paulo. O trânsito dessas vias, formado principalmente por distribuidores que fazem a colheita e o transporte de frutas da região, foi desviado para a rodovia Washington Luís, e direcionado para barreiras sanitárias instaladas na entrada de Taquaritinga. A medida foi tomada pelo prefeito Vanderlei Mársico, segundo notas da assessoria de imprensa da cidade, “após a prefeitura da cidade vizinha endurecer as medidas de isolamento social.” 

Nas redes sociais do pessoal que transita por ali, a informação que circulou é de que havia um surto de covid-19 descontrolado em Cândido Rodrigues, onde mais de 20 pessoas teriam sido contaminadas no velório de um parente morto pela doença. A Prefeitura estaria monitorando 63 pessoas que compareceram ao velório. “Está fora de controle lá”, disse um motorista.

“Esse surto é muito preocupante, porque de um lado vai afetar os trabalhadores na colheita, os agricultores familiares que também lidam com as lavouras e vai impactar no abastecimento interno de frutas. Pode ainda servir de vetor de disseminação”, alerta o engenheiro agrônomo Osvaldo Aly Junior, pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Documentação Rural (Nupedor), da Universidade de Araraquara.

Taquaritinga, com 57 mil habitantes e 11 casos de covid-19 confirmados, é conhecida como “capital da goiaba”, sede da maior fábrica de goiabada da América do Sul, a Guari Fruits, e os 800 produtores instalados ali, 70% deles com propriedades de menos de 50 hectares, também plantam carambola, maracujá, abacate, lichia, tangerina, soja e amendoim, produzem leite e carne. A região é responsável por 40% da produção nacional de frutas e pelo abastecimento dos mercados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. 

Cândido Rodrigues tem apenas 2.668 moradores e segundo o IBGE, 10 foram contaminados. Aly diz que a preocupação existe porque, embora pareça um problema local, a dinâmica do trabalho nas lavouras da região envolvem a movimentação intensa de trabalhadores. “Não são mão de obra fixa, trabalham em diferentes municípios dessa microrregião. Quem colhe em Cândido Rodrigues, colhe em Taquaritinga, em Monte Alto, em Jaboticabal, uma hora está na cana, outra na fruta. Ele anda na região. Há relatos de que é comum ver esse pessoal fazendo a colheita sem máscaras e sem distanciamento social”, diz.

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https://www.congressointernacionaldotrabalho.com/copia-noticias-reabertura-sp

No contexto Covid-19, a política de segurança alimentar está produzindo uma crise alimentar

Por: Gerson Teixeira, ex-presidente da ABRA*, 30 de maio, 2020

A concentração das terras continua no Brasil. Foto: Clovishi
Fonte: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/meio-ambiente/59732/governo-bolsonaro-aprovou-mais-agrotoxicos-em-200-dias-que-a-uniao-europeia-em-oito-anos

Exceto por experiências episódicas, há muito o Brasil abdicou de estratégias consistentes para a promoção do efetivo desenvolvimento do país. Mesmo os debates sobre o tema do desenvolvimento perderam espaço na agenda nacional. Ao que parece nos conformamos com a caracterização de ‘país emergente’! 

 Tem sido ‘mais fácil’ a duvidosa projeção do Brasil para o status de ‘o grande líder’ do planeta na oferta de algumas commodities agropecuárias, no caso. Afinal, basta a rendição aos interesses da grande exploração agropecuária; a aposta na tradição primário-exportadora do país; e nos cenários promissores de uma forte demanda alimentar mundial, centrada na Ásia, que ademais de superlativa tem a ‘vantagem’ adicional de apresentar-se livre de tensões socioambientais. E isto, sem base regulatória interna capaz de efetivamente mitigar, contornar, reparar ou remunerar os vultosos custos socioambientais e territoriais, e as perdas econômicas implícitas ao projeto. 

O fato é que a trajetória de desindustrialização do Brasil tem sido acompanhada do avanço da economia do agronegócio sob o controle do capital internacional, com baixa internalização e diversificação de efeitos econômicos no elo industrial desta vasta cadeia que tem na arcaica estrutura de posse da terra e nas mazelas da sua utilização, as dimensões fundantes do projeto. 

 De 2005 para 2018 as exportações brasileiras do agronegócio saltaram de US$ 43.5 bilhões, para US$ 101.4 bilhões, sendo que em 2019 houve um recuo de 4.3% no valor exportado em razão da queda de 6.9% no índice de preços das exportações do agronegócio brasileiro. Ainda assim, o setor aumentou sua participação nas exportações do Brasil, de 42,3% do total em 2018 para 43,2% em 2019. No período de 2005 para 2019, a participação da China nas compras dos produtos do agronegócio do Brasil saltou de 7% para 35%. 

Para destacar um dos múltiplos efeitos colaterais dessa duvidosa opção brasileira, em 2019, a área requerida para a produção do volume exportado de soja (90 milhões de toneladas considerado o complexo soja) foi de cerca de 29 milhões de hectares, ou 80% dos 36 milhões de hectares da área plantada com soja na safra. No caso do milho, a área plantada para produzir os 43 milhões exportados equivaleu a 8.2 milhões hectares, ou 46% da área total plantada com milho. Em resumo, para exportar apenas esses dois produtos o Brasil utiliza área equivalente a 51% da área total com lavouras temporárias (73 milhões ha), ou 59% da área total plantada com grãos (63 milhões ha). 

Com as prioridades focadas para o setor exportador simultaneamente observa-se a fragilização das estruturas de produção e abastecimento dos alimentos essenciais da dieta básica dos brasileiros. No caso da estrutura produtiva, vimos que a área com lavouras do país passou a ser ocupada preponderantemente com as commodities exportáveis. Para demonstrar o fenômeno em perspectiva, as figuras abaixo apresentam os índices de área plantada de culturas selecionadas no período de 1995 a 2019 (com 1995=100). A primeira figura apresenta o índice para culturas com elevados conteúdos exportadores: soja, cana e milho. No caso do milho, trata-se de produto que penas 

recentemente passou a ter peso substancial nas exportações. Em 2010 o Brasil exportava 11 milhões de toneladas de milho; em 2019 o país exportou 43 milhões de toneladas passando a assumir a 2ª colocação no ranking mundial, pouco atrás dos EUA. Na 1ª figura, vemos que o índice passou de 100 para 315.5 no caso da soja; para 129.6 no caso do milho; e 217 para a cana. Na figura seguinte, os índices decresceram de 100, para 38.7 no caso do arroz; 53.1 para o feijão; 60.8 para a mandioca; e 66.6 para batata. 

Gráfico 1

A política de crédito rural oficial (e também a privada) um dos instrumentos indutores dessa realidade, ‘abandonou’ o financiamento da produção dos alimentos mais presentes na culinária brasileira. Para agravar, desde o golpe de 2016 e, em especial, com o atual governo, os estoques públicos de alimentos simplesmente deixaram de ser preocupação por parte do poder público, conforme demonstraremos. Derivado desse quadro, o Brasil experimenta fenômeno de carestia dos alimentos, o qual, por suposto, pune de fora desproporcional as camadas populacionais nas faixas inferiores de renda que são a grande maioria da população brasileira. 

Sobre o crédito, Em 2019, dos R$ 61,8 bilhões das dotações do crédito rural oficial aplicados no custeio das lavouras, 81% foram destinados ao custeio da soja, milho, café e 

cana, sendo que somente o custeio da soja consumiu 49.2% desses recursos. Especificamente no Pronaf, que deveria estar voltado para a produção de comida, o quadro não é diferente. Em 2019, o custeio da soja consumiu 42% dos R$ 8.2 bilhões aplicados no custeio das lavouras pelo programa. 

Sobre os estoques públicos de alimentos, observe-se na sequência de figuras a seguir, a evolução (2014/2020) do volume médio dos estoques de alimentos estratégicos, no período de janeiro a maio.

Gráfico 2 

Produção decrescente dos alimentos básicos da dieta brasileira. Em toneladas.
Fonte: CONAB. Organização: autor.

No quadro abaixo, comparamos os estoques médios dos alimentos (jan/mai 2020) com os respectivos níveis do consumo nacional para demonstrar o estado crítico dessa relação, que traduz rigorosamente o abandono de uma política decisiva para a estabilidade dos preços e da garantia da segurança alimentar: 

Quadro 1

Organização: autor.

Em resumo, mesmo com a demanda alimentar represada por conta da crise econômica, neste momento levada ao extremo pelos efeitos da pandemia, ainda assim, constata-se acentuada vulnerabilidade do abastecimento alimentar que vem se refletindo em processo de inflação da comida que pune ainda mais as populações vulneráveis. 

De acordo com o IBGE, no acumulado do período de janeiro/abril do presente ano, o IPCA geral variou 0.22% e o da “alimentação no domicílio”, 3.94%, ou 18 vezes mais que o índice geral. Esse resultado ponderado ‘acoberta’ altas estratosféricas nesse período de alguns alimentos dos mais essenciais da dieta dos brasileiros. Ressalvadas sazonalidades, de janeiro a abril os preços médios da cenoura saltaram 97% (441 vezes maior que o IPCA Geral); os do tomate, 52%; cebola, 49%; batata, 42%; feijão, 23%; banana, 20%, etc. 

Portanto, ante o exposto, é realista afirmar que o Brasil somente não experimenta uma grave crise no abastecimento alimentar interno por conta do incremento da pobreza, da miséria, e consequentemente da fome, o que obviamente impacta na redução da demanda alimentar. Qualquer projeto ou iniciativa de recuperação da economia brasileira e, por conseguinte, do emprego e da renda, deve ser acompanhado de medidas robustas pelo ajustamento da oferta alimentar. Para agravar, mesmo as importações de alimentos estratégicos a exemplo do trigo, enfrentam os efeitos do ‘novo câmbio’ e a insensatez política do atual governo que dissemina a beligerância mesmo entre nações aliadas históricas.

*ABRA é a Associação Brasileira de Reforma Agrária. O artigo foi divulgado originalmente pela Secretaria Geral do MST em 31 de maio.

Frigoríficos no Brasil também são focos de trabalhadores infectados com Covid-19

De: Fernando Mendonça Heck (IFSP- Tupã) & Lindberg Nascimento Júnior (UFSC), 27 de maio, 2020.

Mapa mostra a concentração de pessoas infectados pelo coronavírus em torno dos frigoríficos de abatimento de aves no sul do Brasil até dia 20 de maio.

Segundo Fernando Mendonça Heck, do Instituto Federal de São Paulo em Tupã, “os frigoríficos já são conhecidos pelo preocupante número de casos de agravos à saúde do trabalhador relacionados diretamente ao processo produtivo como as Lesões Por Esforços Repetitivos”. Porém, os casos da Covid-19 aprofundam essa situação que degrada a saúde dos trabalhadores, pois “apesar de serem considerados atividades essenciais, o processo produtivo aglomera trabalhadores em ambientes fechados com baixa taxa de renovação de ar e sem o distanciamento mínimo necessário para evitar o contágio. Tais condições favorecem a proliferação do vírus”, afirma o pesquisador.

Para Lindberg Nascimento Júnior, da Universidade Federal de Santa Catarina, “o conhecimento do padrão espacial da COVID-19 não somente oferece possibilidades de criar mapeamentos e produtos cartográficos informativos e de fácil assimilação, mas principalmente a produção de um conhecimento que auxilie nos processos decisórios para a proteção, segurança e saúde dos/as trabalhadores/as, principalmente em setores que, em sua maioria, não tiveram as atividades paralisadas em função da pandemia”.

O estudo foi baseado tendo como universo de análise os municípios da Região Sul e as informações de casos confirmados da COVID-19 – conforme Radar COVID-19 até o dia 20/05/2020 – e o número de vínculos (empregos) e estabelecimentos associados a frigoríficos de aves e suínos obtidos via Relação Anual de Informações Sociais (RAIS).

Os pesquisadores destacam que irão publicar os resultados da pesquisa em periódico científico e que a mesma está relacionada ao projeto universal, financiado pelo CNPQ, e intitulado “Cartografia da Saúde do(a) trabalhador(a) em frigoríficos no Brasil”, coordenado pelo professor Fernando Mendonça Heck do IFSP-Tupã, bem como no conjunto das ações do projeto “Corona-GIS” da Universidade Federal de Santa Catarina, do qual o Professor Lindberg Nascimento Júnior faz parte.

A descoberta do padrão combina com a experiência de trabalhadores na agroindústria de carnes em diversos países da América, como mostra vários artigos publicados recentemente neste site.

Para saber mais, ler o artigo original em:

https://tup.ifsp.edu.br/portal/index.php/noticias/612-pesquisadores-do-ifsp-e-ufsc-encontram-relacao-entre-casos-da-covid-19-e-frigorificos-no-sul-do-brasil